Quando um erro parece transformar toda a nossa vida
Créditos: série Ted Lasso
Em uma cena de Ted Lasso, ele relembra uma situação da infância: precisava ler um livro para uma prova, mas não o fez . Tomado pelo medo das consequências, começa a chorar ansioso e o pai sem entender pergunta o que havia acontecido. Foi quando ele contou que não havia lido o livro, e o Pai carinhosamente o manda para cama e pede para não se preocupar e pensar em algo que ele goste de fazer para conseguir dormir.
No da seguinte, ao acordar o Pai diz que ele não iria de bicicleta para a escola pois queria levá-lo de carro. Foi no caminho que o Pai contou a historia do livro para o filho pois havia passado a noite em claro lendo para contar para ele. O menino foi bem na prova por isso.
A partir desta cena tiramos a lição que a prova ainda sequer havia acontecido e ele ainda nem sabia o resultado. Mas, internamente, aquele pequeno erro já havia se transformado em uma grande ameaça.
Pela perspectiva psicanalítica, podemos pensar na força da culpa e da autocobrança. O superego, formado a partir das exigências e valores que internalizamos, pode ser bastante severo. Não precisamos necessariamente de alguém nos punindo: muitas vezes, somos nós mesmos que antecipamos a punição.
E isso pode acontecer também na vida adulta.
Uma situação dá errado e, de repente, começamos a enxergar tudo através dela. Um problema profissional parece significar que toda a carreira fracassou. Um relacionamento que termina parece confirmar que nunca seremos felizes. Um erro faz com que esqueçamos dezenas de acertos.
O acontecimento é real, mas a proporção que ele assume dentro de nós pode ser muito maior.
Na cena, há ainda algo especialmente importante: a presença do pai que acolhe a angústia do filho e não transforma o erro em condenação assim como um Psicanalista faz na terapia. O acolhimento permite que Ted descubra algo fundamental: errar não significa perder o amor, nem significa que tudo estará perdido.
Talvez essa seja uma das grandes questões da vida psíquica: aprender a diferenciar “eu fiz algo errado” de “eu sou um fracasso”, ou até mesmo a diferença entre "ter um problema" e "ser o problema".
Um erro pode ser elaborado, reparado e transformado em aprendizado. Quando ele passa a definir quem somos, entretanto, pode aprisionar nossa percepção da realidade.
Ted tinha medo de que tudo desse errado. Mas o dia seguinte chegou, ele fez a prova e foi bem.
Talvez a vida também nos peça, algumas vezes, para lembrar disso:
Nem tudo está ruim. Às vezes, estamos apenas olhando para a vida a partir daquilo que deu errado.
Texto escrito por Francisco Kindler Neto